
(24/2/2006, Tejo)
Lúcia,
Navegava calmo. Antes, deslizava. Por águas ignotas. Tão líquidas que todas. Mais azuis que tantas. Deitado de costas, despreocupado.
Era um dos primeiros dias do meu novo mundo.
Lembro-me de pensar: ”deve ser esta a sensação de nascer”. Lembro-me de pensar: “ Freuds, Piagets, Kierkegaards, Pessoas e pessoas. Ids, egos, superegos, repressões e adaptações. Bufos, policias, detectives, promotores, advogados e juizes. Quem me explica?, quem se responsabiliza?, quem acusa e prende? Quem perpetuou o roubo da memória? Quem nos abduziu a capacidade de recordar?”
Parei de pensar quando, ao alcance do meu olhar, se prostrou uma silhueta humana. À surpresa de não me sentir surpreendido a minha mente retorquiu com a condição neo-néscia da minha nova vida. Afinal era eu que, de novo, me via. Ensimesmado e embrulhado, com e nos meus pensamentos, tinha-me debruçado na ré do barco.
A todos os nossos actos assiste uma lógica. Se nesta premissa quisermos acreditar. Ou não. Formulei que era porque perseguia a memória, a retaguarda da minha vida, se quiseres (como eu quero), a vanguarda da minha vida anterior, que, irreflectidamente, me tinha dirigido à retaguarda da “Lua”. Se questionava os horizontes perdidos da minha história, fazia algum sentido que ocupasse o espaço físico disponível mais próximo dela. Formulei que, se alguma vez chegasse a fazer planos nesta nova vida, ainda embrionária, talvez me encontrasse, depois de reflectido, na proa do meu barco. Acima de tudo se o fizer assim: calmo, despreocupado, deitado de costas, de olhos muito abertos (como se existisse uma parte metafísica de nós, a tal “alma”, que, nas alturas de maior introspecção precisa de espreitar cá/lá para fora). Parece-me que só mais tarde saberei.
E se navego (porque não sei) em círculos? Onde se localiza, fisicamente, o meu passado?, em Portugal?, em Lisboa?, em ti?. No meu pai?
Perco-me.
Como te contava, estava eu, de súbito, de cotovelos perdidos, de pernas não sei onde, mas de olhos fitos. Nos meus. De cima via-me fragmentado: pela angulação da água, pela refractância da luz. Não me inibi de pensar na desintegração como o melhor reflexo de mim. Encontrei o mais fiel dos espelhos. O meu “eu”, feito de peças inconjugáveis, soube-me doce, trouxe-me a perdida sensação de família. (Cheirou-me ao doce de tomate da minha mãe, senti a canela no ar).
De baixo vi-me uno, inteiriço, completo, levemente assustado, de testa franzida.
De baixo para cima parecia olhar o passado.
De cima para baixo encarava o presente. Gritante. Sedutor. Potente. Em baixo estava, pois, vítrea, fluída, quase transparente: a mão estendida do futuro. E acenava.
Mergulhei convicto e também vestido. Aprofundei o mergulho no futuro até a negritude não me deixar perceber o passo seguinte. Até aí, na minha descida, percebi um futuro lento, calmo, em “câmara-lenta”, plácido, amplo. Coincidindo com o fim das luzes de amanhã a reserva de ar acabou-se-me no preto. Célere, emergi. Expirei forte, como bom mamífero. Senti a fiabilidade da minha viagem “profética” esculpida na perfeição da premonição da minha morte: deixei de ver quando se acabou o ar = morrerei quando deixar de respirar. Tomei por garantidas todas as indicações percebidas até a luz falhar. Senti-me vencedor. Triunfante. Ri alto, gargalhei, provavelmente até os peixes ouvirem. Enchi a boca de água e expirei-a, melhor que bom cetáceo.
Continuei fresco no lar do meu vizinho mar, pensei em como era hospitaleiro o grande reino de Poseidon, que junto aos homens, por cima da areia, desenrola, incansavelmente, tapetes brancos, num convite irresistível, numa dança hipnótica. Submergi nele como quem o beija, e só tarde me lembrei que não ancorara a minha casa.
Já mal a via. A “Lua” em fuga, como quando somos pequenos e a perseguimos, de bicicleta, irritados com a sua infatigabilidade.
Comecei a despedir-me: dela, de ti, da aventura, da liberdade, da conquista. Contrariado despedi-me também da calma. Crente pedi por um vento que me favorecesse. Como não acontecesse, mais crente, nadei. Furioso, desesperado. Não me cansei. Fui levantando a cabeça para medir a aproximação. Não cedi ao insucesso.
Esfreguei os olhos quando me senti aproximar. Redobrei o esforço. Voltei a olhar: estava perto. Não pensei de facto – sorte, milagre, fenómeno, ilusão – continuei e continuei. E por uma vez, consegui: vencer, sentir-me invadido pelas ondas de prazer da recompensa pelo meu esforço.
Confirmou-se a hipótese mais plausível. Foi sorte. Muita. O flanco direito do barco estava parcialmente desfeito pelo embate num rochedo sujo. Substitui a felicidade pelo medo. “Agora afundas-te.” Subi ao convés e roubei um cigarro. Voltei ao rochedo. Dois metros quadrados. Passou-me pela cabeça trazer algumas coisas para o meu novo lar. Fumei e deixei-me vencer pela molenguice do sol e do cansaço. Acordei às escuras. Pequenas estrelas no tecto esforçavam-se por me dar visibilidade. Demorei a perceber que o barco estava, ainda, à minha frente. Na mesma posição. Ligeiramente inclinado para mim, como quem me convidava. Teriam passado, seguramente umas 5 ou 6 horas. Doíam-me as costas. E a cabeça. Subi e liguei as luzes. O meu companheiro não dava sinais de qualquer fraqueza. Afinal talvez não estivesse moribundo. Também ele parecia capaz de resistir a uma amputação.
Sem perceber nada muito bem decidi ligar os motores. Zarpei. Peguei no leme toda a noite, e pela primeira vez senti-me capitão. Senhor do meu caminho. Por muito que não fizesse a mínima ideia de onde estava. Mas optei toda a noite. Direita, esquerda, 60 ou 90 graus, depressa ou devagar. E não pensei em nada senão em seguir, em cansar-me, como se em mim ainda estivesse aceso o medo de me afundar, mais légua menos légua.
O sol nasceu obliquo. Atribui-o ao sono. Mas depois percebi. Percebi que a inclinação vinha da "Lua", que era o resultado da água que se acumulava no lado direito. Percebi que não iria afundar mas que permaneceria inclinado, e que o horizonte jamais se me afiguraria horizontal. Diverti-me por pensar que acabara de descobrir o “obliquonte” e reflecti sobre o facto de esta ser a primeira restrição que sofria na liberdade que procurava. Mais tarde ou mais cedo, por muito ténues que sejam os nossos actos, as condições começam a impor-se, resultando em fundamentalismo bacoco a não aceitação do facto. Sorri. Não quero a inconsequência. É entediante.
Com a lenta vaporização do orvalho salgado da noite voltei à minha melhor forma, prossegui, paralelamente, nas viagens à minha mente. E voltei às recordações. Renovo a convicção de que a perda da memória é injusta. Este renascer que tão bem me sabe é incomparavelmente distante da insalubridade do convencional nascimento. Parece-me agora que as repetições são sempre substancialmente diferentes dos acontecimentos originais. Refazer, quase nunca é fazer de novo e invariavelmente é fazer diferente. Recriar é, na génese, modificar. Reanalisar é buscar a diferença. E portanto é a necessidade de usar palavras que tantas vezes nos limita e induz em erro. A repetição é excepcional. É bom fugir ao lugar comum segundo o qual a vida é cíclica e pensar nela enquanto um caminho aberto.
Prometo que te escreverei já, com surpresas com as quais não contas.
Ainda te amo. Tanto.
Sérgio.
Alinhavar, 21 de Fevereiro de 2003
Fábio H.L Martins