terça-feira, agosto 15, 2006

6ª Carta do Alinhavar


(Atlântico, Perto de Le Havre, Madrugada de 26 para 27 de Abril de 2006)



Querida Lúcia :


Conto-te agora um dos mais inacreditáveis episódios da minha vida:

Lembras-te de na carta anterior te ter dito que secava algas para que quando me falhasse o tabaco eventualmente ter com que o substituir? Conhecendo-me tu como me conheces sabias melhor que eu que, assim que as ditas estivessem secas correria a experimentá-Ias independentemente do estado das provisões de tabaco.. e assim fiz.. Como as tinha separado por cores assim que pude cortei em fitas estreitas um bocado de alga dourada, enrolei-a e sentei-me na proa, abastecido com um copo de gin tónico. A princípio o sabor áspero irritava-me um bocado a garganta, secava-me a boca e estive pronto a esmaga-lo com a ponta do sapato. Mas há quarta ou quinta inspiração o aroma adocicado e o leve travo marinho fizeram-me protelar a decisão. Entretanto satisfez-me perceber: que era suficientemente forte para saciar a minha necessidade nicotínica. Que melhorava a palatibilidade do meu gin. Continuei. A meio do cigarro senti uma breve tontura que depressa se converteu em descontracção. Recostei-me na cadeira e fechei os olhos. Apetecia-me música. Vieram-me à cabeça alguns versos:



"Come over here, babe\ it ain't that bad \ I don't claim to understand the troubles that you had

but the dogs you say they fed you to\ lay their muzzles in your lap \and the lions that they led you to lie down and take a nap\

because the ones you fear are wind and air\ and / love you without measure \ it seems we can be happy now, be It better late than never"



Cantava-os já, quando, de súbito, uma voz colérica irrompeu sobressaltando-me e emudecendo­-me numa sucessão rápida. Dizia ele (que a voz era de homem):

-Desembainha a cimitarra verme Inglês, pois não saboreia o gume da minha aquele que não se defende.

Quando
me consegui orientar encontrei um homem jovem empoleirado no mastro da "Lua': brandindo alto uma espada que reluzia à luz das estrelas. Foi talvez o medo que me fez recuperar o fôlego:


- Mas.. mas.. Inglês?? Eu não... Quem és tu?. O que fazes ai?.. mas.. não.. Como foste ai parar?­- mal articulei eu.

-Atreves-te a negar quem és? Terás mesmo a ousadia de negar que me conheces? Acaso não te doem mais as cicatrizes dos espinhos que te infligi a ti e ao teu colega napolitano? Pois bem, se te fazes de parvo, meu verme, e para que não te trespasse e depois alguém diga que o fiz à socapa digo-te as coisas que melhor sabes na tua vida, não fosse o medo quem melhor acode à memória: Sou Cosimo Piovasco, Barão de Rondó, enamorado da Marquesa Viola, que deves ter cativa nos calabouços desta barcaça, pois se ela me falta, se lhe fizeste a mais doentia corte de que há relato e se o verme napolitano ainda dorme no porto de Ombrosa, então o teu rapto é mais evidente que o sol. Sobe e prepara-te para a refrega, pois sabes bem que não ando senão em árvores, e se aqui vim ter é porque este mastro também já foi uma, porque Viola é o que mais amo na vida, e porque a tua imunda embarcação teve a ousadia de rasar de tal forma o bosque que me bastou um salto para aqui vir ter. Sobe verme..

-Cosimo? Mas como! Não sou quem pensas, nem poderei estar eu a falar contigo. De facto conheço-te! Li-te num livro, és a personagem .. - dizia eu mais para mim que para quem quer que fosse.

-O que dizes rato infame! - gritou ele, vermelho de raiva, enquanto me acertava em cheio no nariz com uma espécie de bolota - que livro? Personagem?

Sentindo na pele que de livro aquela dor tinha muito pouco ignorei a verosimilhança e decidi entrar na conversa:

- Desculpa Cosimo! Tens razão. Despertaste-me do sono - disse resoluto - e não estava a perceber o que se passava. Sonhava com um livro e todo este sobressalto deu-me a volta á cabeça. De facto ouvi falar muito de ti. Mas não sou quem julgas. Venho de Portugal e viajo sem outra intenção que não seja a de esquecer-me de mim e encontrar-me renovado. Para perceberes que não sou quem pensas que sou vou aproximar-me desta lamparina para que me vejas o rosto - e assim fiz.

-Mas..- foi a vez dele se atrapalhar- então como?.. Passaste em Ombrosa e Olto Massimo ladrou­-te como se te quisesse comer um bocado..

-Talvez por ter sido a primeira vez que me viu, talvez porque eu entoasse uma melodia que o irritasse.. Sabes, é que vinha a cantar!

-A cantar ou a dormir? - gritou de novo, agora com menos bílis - Decide-te que assim não me entendo?

-A cantar antes, até adormecer.. Acalma-te. - parei e senti que começava a dominar a situação. Como fosse o silêncio o meu novo adversário, e porque a conversa me começava a interessar, prossegui:

- Que se passa entre ti e Viola? Achas mesmo que alguém a raptou ou fugiu pelo próprio pé?

-Porque perguntas isso? - perguntou, visivelmente afectado..

-Não sei.. - atrapalhei-me -..mas conheço a tua fama.. conheço a tua teimosia e a tua forma de viver.. pensava para mim como seria Viola, como reagiria ela a tudo isso.. Não deve ser fácil acompanhar-te em cima das árvores..

-Bem.. ela é dura! Faz-me ciúmes e tenta chantagear-me para que eu volte a por o pé em terra, mesmo sabendo que não o farei! Ela quer sentir que a amo mais que ás minhas convicções, e por muito que a ame mais que a tudo queria que ela entendesse que as realidades não se excluem. Se quebro esta minha forma de vida, à volta da qual me erigi e construi, desabo. Deixo de existir assim que voltar a pisar o solo. Para que quer ela que eu a ame depois?

-E disseste-lhe o que me acabaste de dizer?

-Nunca! Também ela nunca me diz que me ama mais que a qualquer um daqueles a quem deixa fazer a corte debaixo do meu nariz. Confessar-lhe o que te disse seria perder.

-Perder o quê?

-Perder para ela, ora! - exclamou, de olhos arregalados.

-Não percebes que nada mais está em jogo senão a vossa felicidade? - disse eu apaixonado - ­que nada se joga senão cartas e malha?, que se ela é como tu e nenhum de vocés admite "perder" perderão os dois? Basta que um perceba. Diz-lhe o que me disseste.. muda o fim do livro.. digo.. da história..

-E tu? Que fazes aqui? - perguntou, atrapalhado, como quem quer mudar de assunto.

-A minha história acabou sem que ninguém me tivesse avisado antes para não ser como tu, e agora ando, em busca de uma ressurreição, perdido, à deriva sem saber onde, sem querer saber, e tudo o que faço é atirar palavras ao mar. Vai. Muda. Tenta ser feliz. Luta contigo..

-Levas-me a Ombrosa? - perguntou, em claro assentimento.

-Onde é?

-Já ali, nesta direcção - e apontou.

Olhei para onde apontava e não vi nada para além da negritude. Quando voltei a olhar para cima, procurando-o, não o encontrei. Ainda lhe gritei: "Chamo-me Sérgio': mas ele nem tinha perguntado.

Acreditas-me? Pensei muito nesta conversa depois de ela ter acontecido, e muito gostaria eu de me falar a Cosimo, mas não tenho mais algas douradas. Todos os dias as procuro no saco.

Apetece-me música.

Saudades. Tantas,

Sérgio


Fábio H.L. Martins, Alinhavar, 28 de Maio de 2003



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6 comentários:

Maria P. disse...

Excelente forma de começar o meu Feriado, obrigada.

Um beijinho.

Anónimo disse...

Tão bom! Depois de uma tarde toda a dormir, de saída de banco, sem fazer nenhum, começar a noite embalada por mais uma viagem a bordo da "Lua".
Beijo grande.

sem-comentarios disse...

Essas cartas de amor inspiradas, fazem-nos sonhar :)

Parabéns.

bjs*

Pedro Chagas Freitas disse...

:)

redonda disse...

Agora fiquei a saber que as algas podem ser fumadas, mas pode ser perigoso fazê-lo...além de gostar muito de ler a carta.

Um beijinho

Fábio disse...

Meus queridos amigos, obrigado por me tornarem as férias mais doces, sacio um pouco das saudades com as vossas palavras doces.
Beijinhos


Pedro Chagas Freitas: Pela segunda vez o mesmo comentário.. devo perceber que fica sem palavras?!? Um sorriso é sempre ium sorriso, mas a ausência de superficie retira-lhe dimensão.. Obrigado pela visita, mas se se der a conhecer será muito mais rico o nosso contacto. Um abraço.