sábado, setembro 16, 2006

Uma espécie de sono

"A fuga" - Teixeira Pinto

Há uma condição intrínseca às relações interpessoais, que não se enreda em afinidades ou se erige em respeito, que não se fomenta com carícias ou se adquire com argumentações, que não se invade de frenesim nem se abala em convulsões - a compreensão.
Que não é empática nem nunca dismórfica, que surge porque duas pessoas são ancestral e ontogénicamente conjugáveis, e que por último, contudo, se pode cultivar, preservar e proteger.
Gosto de pensar que posso proteger as pequenas bolsas de intersecção que identifico entre mim e algumas pessoas. Gosto de pensar que darei tudo por esses espaços em que comungo. Gosto de pensar que posso ser zeloso da ancestralidade.

Gosto de pensar que com poder demiúrgico se pode forjar uma compreensão, e do nada, solidifica-la, burila-la, faze-la existir. Torna-la mais verdadeira que as ancestrais.

Sem embuste, sem hipocrisia - com amor.

Existem atitudes que me magoam. Algumas dessas formam-me, constituem-me. Mas, ultrapassando os lugares comuns, a tendência para a capitalização da experiência, a versão pós-moderna e metafísica do "o que não mata engorda", a verdade é que, a maior parte delas me fere letalmente: porque há uma parte de mim que se extingue - uma parte de fé, de ânimo, de auto-estima, de felicidade.
Há uma ânsia catartica na dor e na perda, que nos coloca em risco.
Há tanta coisa que eu não gostaria que houvesse.
Há discursos hipócritas e discursos genuinos que serão sempre entendidos com os primeiros.
Há discursos inocentes e discursos ofensivos que serão sempre entendidos como os primeiros.
Há desejos de fuga que se atenuam em passos lentos, que são motores de busca, que nos entrecortam os dias perguntando-nos: estás no sitio certo? É verdade? Sentes isto? Viste aquilo? Era mesmo isso?
Há dúvidas que valem por mil certezas.
Há uma espécie de sono, de neblina.

Fábio H.L Martins, 16 de Setembro de 2006

6 comentários:

margarida disse...

Muito interessante o teu texto. Comungo das tuas ideias, identifico-me nas tuas palavras. Parece-me estranho encontrar sensações, que pensava únicas e pessoais, num outro local. Sinto-me curiosamente ... compreendida. Talvez te devesse agradecer por isso.

Fábio disse...

Que dizer? Eu agradeço, profundamente as tuas palavras.
O texto é sério, é fresco. E sinto-me então compreendido. P
ensei que a mensagem estivesse de alguma forma encriptada pelas incrustrações que a alma imprime à mensagem quando esta sai.. Mas entendeste-me, e indentificando-te com as palavras, permitiste-me sentir menos só.
Repito, agradeço, profundamente.

Maria P. disse...

Mais uma escrita bem descrita.

Bom fim de semana.

Pedro Chagas Freitas disse...

:)

musalia disse...

texto fabuloso...não o digo para te elogiar. não, não é isso. digo-o porque capta o que penso e, infelizmente (a lucidez é benéfica, prefiro-a, claro...mas não quer é dizer que seja inóqua), reflecte o que se passa nas relações entre as pessoas. há excepções, valha-nos isso...

bjs.

Fábio disse...

Maria P. Obrigado pelas palavras, uma vez mais. Troco escrita por fotografias das tuas. Aceitas? :)

Musalia: Deixas-me verdadeiramente sem saber que dizer... obrigado. Beijinho. Fiquei muito feliz.